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O container e sua história oculta sobre adaptação

  • Foto do escritor: Fabio Arten
    Fabio Arten
  • 19 de jun. de 2017
  • 3 min de leitura

Neste post, a proposta é compreender a adaptação como uma competência coletiva essencial para a sobrevivência de uma organização, um modelo de negócios ou, até mesmo, um grupo de trabalhadores que ofertam um determinado produto ou serviço. Para tanto, será explorada a inovação que permitiu, em grande parte, que o fenômeno da globalização se destacasse como um dos mais proeminentes no início deste século: o container!

Malcolm McLean era um caminhoneiro de apenas 24 anos, durante a Grande Depressão norte-americana da década de 30, quando teve seu momento de epifania, isto é, aquele despertar de uma ideia que traz uma sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo. Para efeito de contexto, naquela época, as cargas eram descarregadas dos caminhões e carregadas para os navios por meio do trabalho dos estivadores.

O chamado embarque a granel era um processo lento e braçal em que trabalhadores enfileirados levavam fardos, sacas, caixas e caixotes nas costas para os navios, como formigas carregando folhas para o formigueiro. Em média, eram necessários 8 dias para carregar e outros 8 dias para descarregar um navio no porto. Isto é, aquele grupo de prestadores de serviço realizavam um processo custoso e pouco produtivo. Então, McLean pensou, provavelmente, algo do tipo: Não seria ótimo se o meu caminhão fosse içado diretamente para o navio, sem a necessidade do trabalho dos estivadores? Aquela ideia foi a centelha que inspirou sua criatividade e que culminou com o fenômeno do comércio internacional denominado como “conteinerização”.

No livro A Caixa, escrito pelo economista, historiador e jornalista Marc Levinson é contada em detalhes a dramática história sobre a criação do container. Muitas barreiras tiveram de ser superadas, desde sua ideia em 1937 até a viagem da primeira grande caixa (o Ideal X) em abril de 1956 (note que Malcolm já estava com 43 anos!!!): uma jornada marcada pela necessidade de recursos financeiros pesados na geração e produção daquela nova tecnologia e outra quantidade, ainda mais considerável, de investimentos do estado na adaptação de toda infraestrutura que serviria de suporte para as atividades de transporte.

Porém, apesar de sua importância para o comércio internacional, é preciso considerar que uma inovação que levou quase 20 anos para acontecer não demonstra ser um grande caso de sucesso. Assim, uma consideração mais cuidadosa daquele ambiente de negócios demonstra que, apesar do serviço de alto custo e pouco eficiente prestado pelos estivadores, os altos custos de troca da tecnologia – container/estivadores – foram, por muito tempo, um grande empecilho para a economia adotar aquela inovação.

No entanto, o fato é que o container tornou-se a realidade que encurtou distâncias no mundo e ampliou a economia global para patamares nunca sonhados. Então, o que houve? Qual força foi capaz, como nenhuma outra, de impulsionar aquela inovação?

Em seu curso aberto na plataforma educacional Coursera sobre Perspectivas Críticas na Gestão de Empresas pela IE Business School, o Professor Rolf Strom-Olsen argumenta que, uma mudança tão profunda envolvendo tantos recursos financeiros e tantos agentes econômicos (proprietários de navios, sindicatos de estivadores, transportadoras de cargas, governos etc.) foi motivada, na verdade, pela absoluta falta de capacidade de adaptação dos estivadores e de seus sindicatos.

Strom-Olsen destaca que as décadas de 40 e 50 foram marcadas por uma série de conflitos entre sindicatos de estivadores e portos em diversos países (por exemplo, França, Inglaterra e EUA). As condições de trabalho, de fato, eram precárias e em resposta àquela situação, estivadores e suas organizações sindicais decidiram demonstrar sua importância e sua força ao mercado com uma solução muito ortodoxa, pouco criativa e nada inovadora: eles entraram em greve!!!

Estas manifestações ocorriam sem qualquer tipo de coordenação, de modo que trabalhadores no porto de Los Angeles (EUA) poderiam decidir paralisar suas atividades com base em condições locais, enquanto que em Marselha (França) um evento específico – um acidente, por exemplo – rapidamente resultava em greve. Para o mercado, a reação grevista dos estivadores trouxe ao ambiente de negócios uma característica nova, de imprevisibilidade das operações, pois não era possível prever quando as atividades de um determinado porto seriam comprometidas por conta de uma paralisação.

Aquelas greves geraram descontinuidades nas linhas de produção das indústrias e, cumpre-se ressaltar, isso era mais crítico e problemático para todos - governos e empresas - do que o característico custo elevado e a típica ineficiência na operação dos serviços executados pelos estivadores nos portos. Assim, a completa falta de capacidade de adaptar-se às condições de mercado, que demonstrou toda a fragilidade do sistema, acabou por impulsionar a adoção da inovação concebida pelo caminhoneiro-empreendedor Malcolm McLean e levou o mundo para a conteinerização.

No fim, a história sobre Malcolm McLean e a criação dos containers é, de um lado, uma lição sobre inovação, enquanto que, de outro lado, uma lição mais rica ainda sobre a capacidade de adaptação, contada pelos estivadores e que evidencia como esta competência coletiva é essencial para a sobrevivência no mundo dos negócios.

 
 
 
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