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Rafaela Silva e a resiliência humana


Certa vez, Janet Fitch, uma escritora norte-americana, disse: “a fênix precisa queimar-se para emergir”. Sua especialidade são livros de ficção, como dramas e romances. No entanto, a ideia desta frase, assim como a do próprio pássaro da mitologia grega, são poderosas lições para o mundo corporativo.

No mito, ao morrer, a fênix entra em um processo de autocombustão para, então, renascer de suas próprias cinzas e seu significado pode ser traduzido como uma esperança que nunca têm fim. Por aqui, as dificuldades inerentes à praticamente todas as áreas de atuação profissional, promovem um ambiente quase perfeito para histórias de verdadeiras fênix brasileiras. A judoca olímpica, Rafaela Silva, é uma dessas aves mitológicas nacionais.

Após conquistar sua medalha de ouro, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, em uma entrevista emocionante, ainda sob o efeito do êxtase provocado pela vitória e marcada por postura arrebatadora durante toda a competição, Rafaela disse: “Eu só posso falar que o macaco que tinha que estar na jaula em Londres, hoje é campeão olímpico dentro de casa e que hoje eu não fui a vergonha para a minha família”.

O desabafo tinha uma razão de ser. Rafaela, quatro anos antes, nos Jogos de Londres, foi desclassificada, na segunda rodada, ao cometer um erro técnico e, na sequência, sofreu uma série de julgamentos pesados da opinião pública sobre sua qualidade profissional. Em casos extremos, a judoca sofreu verdadeiros assédios morais nas redes sociais.

A história de vida de Rafaela não cabe neste presente (e humilde) post, pois vai muito além de uma derrota, com efeitos morais devastadores, até uma redenção olímpica em casa. Sua vida foi marcada por dificuldades, desde a infância pobre, passando por todo o tipo de obstáculo e ausência de suporte e apoio profissional como atleta, até a própria falha humana cometida em um momento crucial de sua carreira. No entanto, após queimar-se, a fênix emergiu.

Mesmo hoje, trata-se de tarefa difícil e imprecisa afirmar quais foram os fatores que motivaram a atleta em sua jornada de perseverança. Porém, é público e notório que Rafaela Silva possui uma competência, ainda pouco discutida no mundo dos negócios: a resiliência.

A edição brasileira de abril da Harvard Business Review (2017) discute a resiliência, em um de seus artigos – Licões da neurociência: como construir uma cultura organizacional de resiliência, de George Everly Jr. como uma competência com capacidade de garantir por exemplo, a satisfação no trabalho e, até mesmo, a honestidade.

O Ph.D Everly Jr. afirma que a resiliência é a capacidade de se recuperar do estresse e da adversidade. Além disso, a resiliência apresenta dois fatores interligados: (1) resistência preventiva, que se relaciona com a imunidade do indivíduo; e (2) resiliência reativa que, por sua vez, corresponde a própria capacidade de recuperação frente à adversidade. Para o pesquisador, este conceito se aplica às pessoas, às agremiações esportivas e às organizações.

Também é complicado, à distância, afirmar qual dos dois fatores (a resistência preventiva ou a reativa) é mais forte em Rafaela ou se há um equilíbrio entre eles. Mas, é possível observar que ela evoluiu imune às dificuldades de sua infância e se desenvolveu, apesar de tudo, como uma grande atleta. Além disso, ela soube se recuperar da derrota em Londres, com paciência e dedicação para demonstrar seu valor no Rio de Janeiro.

Mas, é possível desenvolver a resiliência? De acordo com a neurociência, a resposta está nos aspectos que nos fazem desistir quando nos deparamos com obstáculos ou qualquer outro tipo de adversidade. Assim, ao compreender como o cérebro funciona e quais são os mecanismos neurológicos que afetam a resiliência humana, é viável desenvolver métodos e tecnologias com capacidade de ultrapassar esta limitação comportamental.

Segundo o IOM (sigla para Institute of Medicine) – conhecido, no Brasil como Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos – existem sete obstáculos à formação da resiliência humana:

1 – O cérebro é naturalmente negativo. Há uma predisposição humana para codificar informações negativas em relação às positivas. Assim, é mais produtiva a concentração nos aspectos positivos das avaliações que fazemos sobre as coisas, em vez de, simplesmente, criticar e esperar que algum aprendizado corretivo ocorra naturalmente (isso não irá ocorrer!!!).

2 – O cérebro é preguiçoso por natureza. Quando o assunto é resolver um problema, nosso cérebro fica mais preguiçoso e procura realizar a tarefa com maior rapidez para se livrar logo dela. Assim, devemos evitar aquilo que o psicólogo Daniel Kahneman chamou de pensamento intuitivo ou o sistema ascendente, conceito similar proposto pelo, também, psicólogo Daniel Goleman. Independente do conceito de sua preferência, a solução para estes casos é simples: procrastine decisões com altos baixos níveis de reversão.

3 – O cérebro faz suposições. O cérebro não sabe lidar com lacunas de informação. Por isso, promova um fluxo contínuo preciso de informações.

4 – O cérebro está programado para se preocupar. Somos obcecados por problemas, porém a preocupação constante é tóxica para a saúde humana. Por isso, é essencial trabalhar com precisão na gestão de seus problemas e na gestão do tempo que se têm para lidar com eles.

5 – Quando em dúvida, o cérebro hesita. A dúvida resulta tanto da falta de informação quanto do conflito de informações sobre um mesmo tópico. Solução: (mais uma vez) precisão nas informações.

6 – O cérebro procura por associações. Um dos impulsos centrais do cérebro consiste na necessidade de integração social. Dessa forma, desenvolva sua rede de relacionamentos, assim como seu senso de pertencimento.

7 – O cérebro precisa de previsibilidade. A saúde humana fica intoxicada quando nos deparamos com incompatibilidades entre a situação esperada e a vivenciada. Nesse sentido, o planejamento pode auxiliar no realinhamento de suas expectativas.

Não é exagero dizer que, quando consideramos ter todas as respostas, a vida não hesita em mudar as perguntas e o fracasso é parte essencial neste tipo de aprendizagem. Acredito que tanto a ciência, quanto a Rafaela Silva nos mostram que, apesar das dificuldades, é possível, para qualquer um, o desenvolvimento de habilidades e competências que nos tornam resilientes.

 
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